As últimas eleições municipais, conjugadas com a tomada de Michel Temer da Presidência da República, trouxeram um novo alento ao povo brasileiro. No caso de Michel Temer, especialmente porque se abrandou a incerteza em torno da qual gravitava o país, mal comandado por Dilma Rousseff e seu grupo, todos aplicados, e apenas, na tarefa de salvar-lhe o mandato, finalmente ceifado, com a graça de Deus, por seu impeachment.

Durante quase dois anos sobrevivemos, nós, brasileiros, à guerra travada pelos opositores a Dilma, que nada realizou, de um lado pela indigência de ideias e de políticas que pudessem servir para expressar o que se poderia chamar de um governo; o segundo mandato de Dilma foi, ao extremo, desastroso, incapaz e irresponsável. De outro lado, para acentuar tamanha miséria política –, aí colaboraram aplicadamente figuras dos demais Poderes do Estado, do Judiciário e do Legislativo, imersos na desídia, no descaso e no descompromisso com o interesse público.

Um paradeiro de tudo, a não ser da luta permanente e determinada pelo poder que feriu de morte a atividade econômica, o desenvolvimento social e o crescimento do país. O legado é o desemprego, a miséria e a fome de nossos dias. Mergulhamo-nos, sem volta, no mais profundo abismo; e pior que, em dez meses de governo Temer, o que mudou? Nada; pelo contrário, nossas carências se agravaram.

E como não nos bastasse esse quadro de desesperança, as eleições municipais trouxeram com elas as mesmas históricas mazelas. As consequências naturais da entrada de novos mandatários e seus grupos são, muitas vezes, a revisão de tudo que se poderia imaginar como passível de mudanças; quase sempre pouco ou nada evolui, pouco ou nada se transforma porque o modelo de governar é um paciente terminal que ser recusa a morrer. É o modelo que mantém tudo à venda ou disponível ao escambo no grotesco balcão das relações políticas. Trocam-se s ecretarias, coordenadorias, assessorias ou outros poleiros pelo voto fácil de vereadores das câmaras municipais para aprovação de medidas do interesse de administrações e de seus administradores.

Continuamos descortinando sempre o mesmo palco, onde são levadas as mesmas peças que se repetem em enfadonhas temporadas de quatro anos; mudam-se, às vezes, seus atores, mas se repete a encenação melancólica e vulgar que traduz o deboche e o desrespeito com a sociedade e com a coisa pública.

O Brasil está inundado pela corrupção, pela fraude, pela mentira, pela criminosa inversão de prioridades, que desassiste populações miseráveis para irrigar, por exemplo, orçamentos de câmaras municipais, cuja soma, no país, compromete um investimento de R$ 10 bilhões para seu custeio. Esse é o valor que custa o Legislativo municipal das cidades brasileiras. Tem sentido? É moral tal gasto? É moral o orçamento das assembleias legislativas de todos os Estados brasileiros, da Câmara dos Deputados, do Senado Federal?

Tenhamos também atenção para o que custa o Judiciário brasileiro, cuja vergonha está estampada na recém-votada Lei Orgânica da Magistratura. Um compêndio de privilégios, que corrói talvez a última esperança que a sociedade ainda tem, que é no Poder Judiciário. Perdida essa esperança, o que nos restará?

Luiz Tito - Artigo veiculado pelo jornal O TEMPO, pág. 2, em 07.02.2017