O avanço das dificuldades que têm no desemprego crescente, na falta de oferta de crédito em condições minimamente decentes, na acentuada redução de investimentos para o atendimento das demandas básicas da população e na escalada da criminalidade, conjugadas estas e muitas outras falências do estado brasileiro com o notório e decepcionante despreparo da classe política e do próprio presidente Michel Temer para produzir soluções que resultem em mudança das perspectivas econômicas e por consequência no quadro social do país são fatores que vêm configurando uma trajetória de agravamento sem volta da nossa pobre realidade.

Longe de se querer debitar integralmente ao atual governo as razões do tão acentuado flagelo que representa nossa  economia, certo é que já não mais se disfarça o desencontro  da esperada solução dos nossos problemas com as medidas propostas pela equipe econômica; estamos permanentemente gravitando em torno de um inconcluso projeto de reforma da previdência e das outras incertezas que se produzem a cada sexta-feira quando vazamentos da Operação Lava-jato instalam o pânico em Brasília. Certo é que o impeachment de Dilma Roussef e o desalojamento do PT do comando da nação, pouco ou nada produziu de efetivo em mais de sete meses de governo.

Quem imaginava que estaríamos partindo para a retomada da esperança não considerou que Michel Temer fosse um homem de conchavos, dono de uma biografia construída com ingredientes de pouca consistência  para liderar um projeto nacional de mudanças. Temer arrancou (ou enganou) bem, revertendo apenas pelo entusiasmo uma situação que não podia ser pior, gerada pelo desgoverno e pela falta de autoridade da presidente Dilma,  do seu partido e da sua equipe. 

Mas ficou aí e o Brasil, pior. Citado como beneficiário em quase todas as delações oferecidas pelos dirigentes da Odebrecht, aplicado em fabricar cargos e salários para acomodar os apaniguados daqueles que o ajudam, mal e porcamente, a operacionalizar soluções meia boca no Congresso, Temer est&aa cute; ainda submetido ao que se poderá destampar do processo de cassação da chapa eleita em 2014 que ele integrou como vice de Dilma, em curso no TSE.

Nesse processo Temer convive com a triste necessidade de ter que aturar com simpatia o ministro Gilmar Mendes, uma das figuras mais confusas e polêmicas do Judiciário brasileiro e nas mãos de quem está a faculdade de pautar o julgamento do feito. Sobre si ainda pairam a incerteza e o medo das delações que o identificam como destinatário de milhões de Reais, que nunca apareceram nas contas da campanha e do seu PMDB. Sintetizando, a isso estamos resumidos: a um governo errante, a um Legislativo omisso e desmoralizado e a um Judiciário politizado, gestor de delações e mentor de turbulências. O que esperar?

Luiz Tito - Artigo veiculado pelo jornal O TEMPO, pág. 2, em 20.12.2016